Apetites

Hoje não me apetece ir a nenhum lado, apetece-me estar só como um cão sem dono.

Enroscadinha numa manta, em frente a uma lareira, a ler o livro mais banal possível.

Sim, o tempo la fora está atroz e eu aqui ouvindo a chova a cair penso se a chuva será lágrimas perdidas de romances fracassados.

O dia de hoje parece um mistério que eu não desvendo. Volto a página para trás.
Tenho medo de passar do prefácio.
Este medo de avançar as páginas (que já nem em papiro nem em pergaminho estão) pode ser um estigma de uma vida? de vivências?

Medito sobre isso.

Chego a conclusão mais disparatada e certeira. Sinto-me perplexa.
Gosto de rotinas na vida. Não gosto de passos grandes e mudanças. Gosto das banalidades do dia-a-dia e de repeti-las.
Gosto só de pequenos pormenores que surpreendam e mudem alguma coisa, mesmo que mínima.
Mas não tenho uma grande necessidade de procura incessante de algo novo e ainda indefinido. E é tão bom, transpassa a tranquilidade e a nossa própria condição.
A vida por si só é uma rotina, cíclica.

E agora em forma de despedida fecho os olhos (como fazem as crianças quando o pensamento lhes foge numa tentativa de o apanharem).

...Mas as vezes tenho desejos mais ousados.

Poema à mãe

"No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves."
Eugénio de Andrade

Recheado de significado, simbologia, palavras fortes e ternurentas.
Esta simbiose somos nós, o que sentimos, os nossos sentimentos, a nossa relação.
A tua dependência é por vezes asfixiante, mas eu no mais fundo de mim gosto dela.
Preciso de ti, de mim contigo e de mim sozinha. Preciso de tudo, cada coisa no seu momento.
Muito poderia eu escrever ou dizer, mas sei no final tudo tinha ficado por escrever ou dizer.
Porque a nossa relação não consegue ser descrita em nenhuma ciência exacta seguindo a típica metodologia cíclica: inicia-se por observações e medidas experimentais, estas conduzem à formulação de um modelo ou de uma teoria, da qual se podem extrair previsões sobre novos fenómenos que, se confirmados, justificam a validez da teoria.

Nas desventuras nos entendemos e nas velhas quadras nos sossegamos.
Mas quero que saibas e acredites que, no mais fundo de mim, não me esqueci de nada, mãe.

Não me lembro de nada melhor

Eu aceito a sorte que a vida me deu, mas é pena ser dos fracos que aceita sem pensar e repensar.
O desespero ilude.
Amanha é cedo para estar melhor, amanha é cedo para mim.
Não me lembro de nada melhor, só queria um pequeno gesto para fugir do pavor, eu dava tudo para saber... Mas continuo a fugir, não me lembro de nada melhor.
A minha vida está a ficar mais curta...e eu perdida em pensamentos.
Os meus desejos estão sempre a mudar, e pudesse eu saber sempre o que desejo o que quero.
Não consigo virar páginas e o mundo acaba amanha. E já sei que vou pensar: O que fiz eu?
É tão mais fácil não me mover. E é tão mais difícil tomar decisões.

Nas ruas desprezo quem sorriu para mim.

Meu coração de criança

O meu coração ainda é de criança, não se cansa de ter esperança.
Sonha, sonhos sem fim...
Quer guardar e agradar o mundo, como se o mundo fosse possível de guardar...e de agradar? Inimaginável.
A sua volta tudo deveria ter luz, magia e risos... Para viver precisa dessa oxigenação num belo dia (será tão insólito?).
Na verdade vive tanto de ilusões, que as vezes fecha os olhos e chora, um choro sem fim.
Sente falta quando o largam, quando não o desejam e tenta contornar o incontornável.
Quer ser alguém melhor, para que seja sempre aprovado (são só desejos naquelas veias!)
Mas as vezes um vulto de mulher desperta o meu coração de criança, e quer abanar-me, dizer-me que o que se perdeu já não volta mais...
O meu coração ainda salta, meu coração vagabundo, ainda julga ser capaz, vai caminhando e cantando pela estrada enquanto houver sentidos, saídas, mesmo que com curvas e contracurvas, desde que não ande as avessas...

Agora com o vulto de mulher escrevo que o mundo não me pertence, que não posso ter o mundo embalado no seu regaço.

Momento final

"Sentado e a árvore ali
Ao pé de mim
O vento agora
Já nem vem aqui
deixei de ter com quem falar
Fiquei sozinho com o meu olhar(..)"

Santos e pecadores - Momento final

Pode não ser o momento final, só sei que o caminho está incerto e não sei se tenho um lugar onde o santo e o pecador possa enfim descansar

...mas sorrindo parto para outro lugar.

Aiiii vamos nos!!

Afinal vamos juntos, de férias, sim de férias!
Não acreditei que este ano fosse realizável...diziam-me que estas coisas de férias assim como as que vamos ter são difíceis de organizar, já nem todos temos os mesmos interesses, horários, imensas complicações. (E sim, é verdade, também notei que já nem todos de todos tinham os mesmos interesses)

Então aqui fica a dica, não organizem, vão como nós, a deriva, porque juntos depois nos encontramos.
Isto de viver antecipadamente (aflições, complicações, planos,...) já não é para mim, também nunca foi.
Hoje apetece-me escarrapachar aqui, revelar as tuas meias palavras, as verdades que derramas em mim. Sabes é que os outros não conseguem ver. A eles só mostras o melhor, esforças-te.
Mas olha os teus traços estão vincados? Eu passo-os a ferro!

Hoje queria ser a Rebecca Bloomwood (como faz bem ao espírito)!