O tempo desfaz-se
O tempo desfaz-se em sentimentos, em afectos, em desgostos. Desgostos silenciosos que se alastram, e andam de mão dada sem se falarem.
Já não somos o que queríamos, já não sou o que queria.
O tempo desfez a espontaneidade que é a moda enquanto crianças.
Desfez em pedaços, em lágrimas, em sorrisos em fugas e regressos.
A verdade, a confiança fugiu, as exigências não são as de criança.
Não são tão triviais como quando se partilhava uma brincadeira e já se era cúmplice.
Desfaz-se em vontades, em retratos...
O que restará sempre é a mesma noite, o mesmo copo, a mesma sede.
Num fim de festa, todos saberemos quem somos, mas por vezes mais vale nem lembrar...e perdemo-nos noutro sonho.
Quase que fomos o que queriamos.
Quase que somos o que queremos.
Quase que fugiamos mas voltamos.
Tudo se tem de abraçar e agarrar, vamos aprender a existir, a ver o sol nasçer.
Identidade
Tu até me pode empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
-E dai? Eu adoro voar!
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não quero acertar sempre.
Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir o meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés do chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre."
Ontem a noite pus-me a reflectir
Nada me apoquentava, sentia-me bem e sentia todo o sentido que a vida tinha (e tão raro que é).
Ouvia o mar a bater, o vento e o fado.
Não fingia nada, não fingia que amava pouco se em mim tudo amava.
Não precisava de recuar um passo atrás para dar um em frente.
Tive um espasmo, um espasmo de espanto, fiquei sem sentidos, pois descobri que o mundo era meu, o tempo era extenso, imparável, mas eu podia dita-lo.
Dei um passo, e andei para a frente,
Só não via tão claro o sentido que davam a vida, a complicação que faziam, a complicação que era, quando tudo podia ser simples. Uma ousadia sem medos. Não percebia o porque de interrogações excessivas.
Morri um pouco, devagar...ressuscitei, nasci outra vez e revivi.
Por pouco que tudo tinha perdido toda a graça, e estava a compreender o que não queria.
Se não fosse ter descoberto o amor e o refúgio, se não fosse isso, não vivia sonhos acordada.
Não via tão claro o sentido da vida
E tudo seria bem mais complicado.
Agora que adormeci posso acordar.
Adeus amor que cresci.
Escrever
Hoje quero dormir, quero que não falem comigo, preciso da minha solidão.
É na minha solidão que me encontro.
Sim, encontro-me.
O meu cantinho, onde me resguardo e me protejo é como uma bola de sabão, vai longe, flutua, brilha, mas por vezes...rebenta.
Quero escrever, procuro palavras difíceis, linguagem transcendente e a melhor construção frásica, mas tudo o que quero escrever tenho no ouvido.
Quero escrever, quero o melhor tema, a mais correcta abordagem mas na verdade é que hoje acredito em todos os dogmas e vejo-me a transpor todas as regras.
Tento imaginar o que escreveria, mas o meu coração fica acelerado, cansado e exausto só para seguir a imaginação.
Hoje já não escrevo porque tenho tudo já nas vozes do meu sonho, um sonho amparado.
Um devaneio teu
De um devaneio teu. Devaneio num dia em que me olhaste com ternura mas com um olhar firme. Eu senti-te diferente, acanhado, até envergonhado. Passados breves segundos percebi que ias dizer algo relacionado com os teus sentimentos, algo que por muito que possa parecer banal eu sei o quão difícil para ti é, e sempre foi, falar de dentro. Mas nesse momento fizeste-me a confissão mais bonita e simples. Foi uma simplicidade fascinante, quando muito se quer dizer, muito de fantasia e pouco se diz. Eu assim vi-te a alma, transparente e aberta.
"Sabes, sempre fui uma pessoa que passava bem sem afectos, nunca senti saudades de ninguém, mas agora preciso de ti, fizeste-me sentir falta de alguém"...
Encolhi-me, peguei no teu rosto, encostei-o ao meu peito. Eu que muito falo, fiquei sem que dizer.
Para mim foi muito mais do que as palavras palavra-a-palavra, sei que te rasgaste do mais fundo que há em ti...
E não mais me esqueci.
Devolve-me a minha vida
Devolve-me o riso, as gargalhadas puras de crianças, a doçura dos chupas que insistíamos levar para as aulas, as receitas experimentais na cozinha, o gozo dos almoços no sitio habitual, na mesa habitual.
Devolve-me o friozinho no estômago na hora do mini-teste, o empolgar com as novidades que experimentávamos, as parvoíces próprias da idade.
Devolve-me a futilidade das tardes roubadas ao trabalho e passadas entre amigas, entre "passeios" pelas lojas, entrar e sair dos vestiários (um número acima,um número abaixo,esta camisola tem a tua cara e esta tem a dela).
Devolve-me aconchego da noite, que sempre atravessávamos com longas conversas às escuras deitadas.
Devolve-me as músicas que me faziam feliz, a voz redonda e cheia com que as cantava pela janela do quarto, sentada junto ao mar, no banco verde da escola ou até no pombal.
O prazer das manhãs deitada na cama e vontade de ler um livro durante a noite, um livro vulgar e lamechas até mais não.
Devolve-me o prazer do silêncio e do telemóvel desligado.
Devolve-me a capacidade de rir até de manha ouvindo piadas sem piada abrilhantadas por piadas privadas atiradas ao ar.
Devolve-me as noites pacificadas no enrosco de um abraço e o gozo de ver um filme de terror.
A sede de saber as cusquices do dia, da semana e de escrever no diário, diário aberto.
Quero os choros, intrigas sem sentido, as "picuices" e os argumentos sem nexo.
Devolve-me, que as pessoas já falam e comentam e reparam no invólucro de mim que sobrevive rasteiro, e toma (leva contigo), o medo que tenho no peito, que nada se repita e tudo se perca.
Fica comigo a vontade de crer as canções, as conversas, os risos e todos os sons que a felicidade possa ter.
Devolve-me a minha vida, que não sei o que fazer sem ela.
Apetites
Enroscadinha numa manta, em frente a uma lareira, a ler o livro mais banal possível.
Sim, o tempo la fora está atroz e eu aqui ouvindo a chova a cair penso se a chuva será lágrimas perdidas de romances fracassados.
O dia de hoje parece um mistério que eu não desvendo. Volto a página para trás.
Tenho medo de passar do prefácio.
Este medo de avançar as páginas (que já nem em papiro nem em pergaminho estão) pode ser um estigma de uma vida? de vivências?
Medito sobre isso.
Chego a conclusão mais disparatada e certeira. Sinto-me perplexa.
Gosto de rotinas na vida. Não gosto de passos grandes e mudanças. Gosto das banalidades do dia-a-dia e de repeti-las.
Gosto só de pequenos pormenores que surpreendam e mudem alguma coisa, mesmo que mínima.
Mas não tenho uma grande necessidade de procura incessante de algo novo e ainda indefinido. E é tão bom, transpassa a tranquilidade e a nossa própria condição.
A vida por si só é uma rotina, cíclica.
E agora em forma de despedida fecho os olhos (como fazem as crianças quando o pensamento lhes foge numa tentativa de o apanharem).
...Mas as vezes tenho desejos mais ousados.
Poema à mãe
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves."
Eugénio de Andrade
Recheado de significado, simbologia, palavras fortes e ternurentas.
Esta simbiose somos nós, o que sentimos, os nossos sentimentos, a nossa relação.
Preciso de ti, de mim contigo e de mim sozinha. Preciso de tudo, cada coisa no seu momento.
Nas desventuras nos entendemos e nas velhas quadras nos sossegamos.
Não me lembro de nada melhor
O desespero ilude.
Amanha é cedo para estar melhor, amanha é cedo para mim.
Não me lembro de nada melhor, só queria um pequeno gesto para fugir do pavor, eu dava tudo para saber... Mas continuo a fugir, não me lembro de nada melhor.
A minha vida está a ficar mais curta...e eu perdida em pensamentos.
Os meus desejos estão sempre a mudar, e pudesse eu saber sempre o que desejo o que quero.
Não consigo virar páginas e o mundo acaba amanha. E já sei que vou pensar: O que fiz eu?
É tão mais fácil não me mover. E é tão mais difícil tomar decisões.
Nas ruas desprezo quem sorriu para mim.
Meu coração de criança
Sonha, sonhos sem fim...
Quer guardar e agradar o mundo, como se o mundo fosse possível de guardar...e de agradar? Inimaginável.
A sua volta tudo deveria ter luz, magia e risos... Para viver precisa dessa oxigenação num belo dia (será tão insólito?).
Na verdade vive tanto de ilusões, que as vezes fecha os olhos e chora, um choro sem fim.
Sente falta quando o largam, quando não o desejam e tenta contornar o incontornável.
Quer ser alguém melhor, para que seja sempre aprovado (são só desejos naquelas veias!)
Mas as vezes um vulto de mulher desperta o meu coração de criança, e quer abanar-me, dizer-me que o que se perdeu já não volta mais...
O meu coração ainda salta, meu coração vagabundo, ainda julga ser capaz, vai caminhando e cantando pela estrada enquanto houver sentidos, saídas, mesmo que com curvas e contracurvas, desde que não ande as avessas...
Agora com o vulto de mulher escrevo que o mundo não me pertence, que não posso ter o mundo embalado no seu regaço.
Momento final
Ao pé de mim
O vento agora
Já nem vem aqui
deixei de ter com quem falar
Fiquei sozinho com o meu olhar(..)"
Santos e pecadores - Momento final
Pode não ser o momento final, só sei que o caminho está incerto e não sei se tenho um lugar onde o santo e o pecador possa enfim descansar
...mas sorrindo parto para outro lugar.
Aiiii vamos nos!!
Não acreditei que este ano fosse realizável...diziam-me que estas coisas de férias assim como as que vamos ter são difíceis de organizar, já nem todos temos os mesmos interesses, horários, imensas complicações. (E sim, é verdade, também notei que já nem todos de todos tinham os mesmos interesses)
Então aqui fica a dica, não organizem, vão como nós, a deriva, porque juntos depois nos encontramos.
Isto de viver antecipadamente (aflições, complicações, planos,...) já não é para mim, também nunca foi.
Mas olha os teus traços estão vincados? Eu passo-os a ferro!
Hoje queria ser a Rebecca Bloomwood (como faz bem ao espírito)!
"A amiga"
A cumplicidade atraiçoo-nos? Nos contrariamo-la com convivência, que é o que mais falta nos faz.
Eu preciso de ti, e é quando penso que a amizade não é um posto, que o medo em mim se põe. Mas como te digo, os braço não foram feitos para serem cruzados.
Se o trabalho que temos a fazer é conviver (o mais que pudermos) e ainda temos a remuneração deste amor, nem me importo de fazer horas extra.
Mas que prazer!
Nos já temos uma vida e disso não nos vamos livrar nunca, são tantos os segredos que os anos trazem.
Nos não somos perfeitas, nunca o fomos, e muitas vezes até fomos casmurras...Quantas vezes custou a sair aquele abraço? Mas como em tudo, o que não nos derrubou, só nos tornou mais fortes.
Somos muito orgulhosas na amizade, nem sempre mostramos o que sentíamos, no entanto, o tempo não conseguia ser mais forte do que nos.
Nos não precisamos de artifícios, não precisamos de andar sempre demonstrando o que somos, sempre de mãos dadas,abraçadas ou aos beijos. O coração é que sente e no entanto também ninguém o vê, é do interior.
E é quando me dizes gosto de ti como antes, que o mundo para mim brilha e renasce.
E posso mesmo dizer que te amo, porque se existem "amo-te" desperdiçados por todas as ruelas este não é.
Este é daqueles que se sentem.
Balanço
Pensei que haviam coisas imutáveis, que nunca iriam chegar ao fim, mas não verdade, não valeu a pena prometer que o tempo não nos fugia das mãos.
Eu sei, fui eu que me emaranhai nos meus sentidos, que julguei que devorávamos para sempre o tempo.
Na verdade deixei-me devorar pela utopia de que há coisas eternas.
Tentar ficar só com as fotografias? as recordações? Não me chega. Hoje o tempo doí.
Recordar chega? Seguir o rasto? Para mim não. O tempo perde-se nas recordações e o rasto desaparece com a ventania.
Efemeridade da vida
Todos temos um fim, é mais que certo e sabido, mas porque é que é sempre nas alturas impróprias? Talvez porque nunca haja a altura próporia, nunca paramos, estagnamos e dizemos "Agora sim, estou pronta para morrer". Também se assim fosse não faria sentido. A Vida/Morte não são mais que contrariedades.
E porque é que tendo, nos, consciência da terna linha da vida conseguimos adormecer aborrecidos, sem tudo conversado?
Quando estivermos despidos de tudo, já não há possibilidade de diálogo, no máximo um monólogo solitário.
As vezes pensando e sussurrando somente a palavra, levanta-se logo burburinho, pois só de pensar perde-se o sentido da vida. E há sempre, em qualquer sitio, alguém que levanta a voz e exclama: "Não falemos disso!", até se tem medo de dizer a palavra tão temida e fria - "Morte".
Mas, efectivamente, que a morte pode mais do que todo o resto, reorganizar a vida.
Faz pensar, talvez mudar.
Como gostava
A minha alma é mais real que o mundo exterior.
Queria dizer (-te)...
Queria dizer-te que és fundamental para mim, para o equilíbrio do universo e para o alinhamento das estrelas.
Queria dizer-te da importância de certos gestos, palavras, acções, para que, a conservação da natureza não seja mera utopia.
Queria dizer-te que é quando me foges com movimentos desencontrados e espavoridos como o bater das asas de uma borboleta, que o caos em mim se põe.
Queria dizer-te da extrema necessidade de duas partes às vezes serem só uma.
Reduzo-me a pormenores que aguento nas entranhas, incapaz de abarcar o desígnio maior disto tudo.
Vogam por aqui insensatas esperanças, embora eu cale o que queria de facto dizer-te, a tanto me leva o paradoxo do orgulho.
Queria fechar os olhos. No fundo, queria apenas dias, brevemente completos, embalados por impressões difusas de felicidade, sem puros egocentrismos.
Queria dizer-te mas não digo.
Antes era era mais bonito?
Antes era mais bonito, quando eras o excesso que se continha em gestos, eras um estado de espírito, uma fragrância, um paladar que ansiava.
Antes era mais bonito, quando davamos as mãos vendo um filme e ficavamos com as mãos húmidas, tal era a mistura de sensações, quando ouvimos musica e olhavamos o mundo como crianças com medo de sermos apanhados sentindo tremores e calafrios.
Quando demos um beijo não foi o pescoço que me caiu na direcção da tua cara porque me deu um torcicolo enquanto dormia e sonhava contigo.
Quando o meu corpo quis o teu colo não foi por causa daquele frio que arrefeceu o banco onde estavamos sentados e me estava a fazer sentir congelada.
Quando o meu nariz te farejou, não era devido a um cheiro diferente que não conseguia definir, não tinhas mudado de perfume.
Agora já te vejo por dentro, já me és mais transparente, e isso não faz com que perca a magia, porque gosto do que vejo, gosto de ler os teus pensamentos e de puder ter o teu corpo despido em palavras.
Antes não era mais bonito, era diferente. Somente mais envolvente.
As palavras
Eugénio de Andrade
Fomos rio, Somos mar
Ainda me lembro tão minunsiosamente de quando eramos um rio, caminhavamos juntos, tinhamos o nosso percurso defenido, sempre calmo, harmonioso, sem desavenças nem conflitos, seguiamos o nosso leito, lado-a-lado, não passavamos sozinhos, nem a leve ondulação.
Mas algo nos atraiçoou, sentimos vontade de não sermos mais um rio, que passa com pouco animo e vontade, queriamos ser o mar, percorrer caminhos mais longos e distantes, onde só não se perde com o movimento quem conseguir manter-se agarrado. Quem não se desprender nem por breves segundos. Sentimos o apelo, a necessidade de algo que exigisse mais de nós, que nos fizesse lutar, o calafrios o aperto já sentiamos, o amor estaria a chegar sem darmos conta.
Como já iamos no caminho fluvial, já tinhamos passado tantos canais, não podiamos parar, o rio tem de desaguar, nem as pedras que atropelavam nos conseguiram travar e sei que separados tinhamos batido em todas as pedras e nunca teriamos sido o mar. E não podiamos jamais ter desaguado em oceanos diferentes, o meu corpo já só pedia da tua água.
Foi ai que demos as maõs, e ficamos sendo o mar. O mar tem muitos obstáculos e enquanto conseguirmos ser o mar, precisamos de estar sempre de maõs dadas, o mar balança, por vezes agrestemente, por vezes harmoniosamente.
O nosso segredo, para as grandes ondulações vai resultar sempre. Vamos para o nosso esconderijo, onde o sol de põe e com ele trás um terno beijo.
Agora te peço para me deixares sempre morar a teu lado..porque sou de ti. O amor chegou, encontrei a minha paz.
